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Sobre-vi-ver a ser

há 5 dias
3 min de leitura

Os atendimentos com adolescentes sempre me surpreendem. Em algum momento, costuma surgir a transferência, uma importante ferramenta da psicanálise: sentimentos, expectativas e modos de se relacionar aparecem no vínculo com o analista. Quando esse vínculo é bem trabalhado, abre-se espaço para que o sujeito se revele.

Um desses adolescentes será chamado aqui, de forma fictícia, de Raul. O nome lembra Raul Seixas, com quem ele se identifica. Ao falar sobre a escolha profissional e sobre o peso das cobranças sociais, ele resume: “É pesado”.

Antes de chegar a esse ponto, porém, muitas conversas aconteceram. A primeira foi com sua mãe. Nela, aparece o desejo de que o filho corresponda ao ideal que ela criou e realize aquilo que ela própria não conseguiu realizar.

Essa intenção pode ser boa quando se transforma em apoio, e não em exigência de que o filho realize aquilo que os adultos desejam para ele. O adolescente vive entre a casa e a sociedade, com um pé em cada lugar. Ainda precisa do apoio dos responsáveis para se sentir seguro. Esse alicerce é necessário até que ele adquira confiança para sair do ninho e iniciar o próprio caminho.

Essa passagem pode ser difícil para todos. Muitas vezes, os adultos misturam a história do filho com experiências da própria adolescência que ainda não conseguiram elaborar.

Voltando a Raul: ao falar sobre as influências que atravessam sua escolha profissional, ele reconhece que esse é um processo muito pessoal. Ainda não consegue explicá-lo por inteiro, mas já encontra palavras para nomear o que sente.

Ao admitir essa dificuldade, Raul faz algo essencial para o início de uma análise verdadeira: reconhece o peso do que está vivendo. O adolesc(i)ente admite o que sente e começa a se perceber como sujeito de sua própria experiência.

Raul começa a transformar em palavras o peso que não quer mais carregar. Ao falar de suas dúvidas, ele as acolhe e diz mais uma vez: “Difícil saber”.

Esse não é um caminho exclusivo de Raul. Todo adulto que já o percorreu também precisou construir algum saber passo a passo. Até os desvios ensinam, inclusive ao revelar como não se quer ser.

O que a mãe de Raul pode fazer nesse momento? Talvez, ao lembrar dos próprios passos, ela reconheça como eram pesadas as cobranças numa fase em que ainda se sabe muito pouco sobre si. Nesse período, a identidade ainda está muito ligada aos pais, aos avós e aos outros adultos responsáveis.

Ao compreender isso, ela talvez consiga oferecer a Raul o espaço necessário para que ele realmente nasça: não mais a partir dela, mas de si mesmo, levando consigo tudo o que viveu até aqui.

Raul ainda não sabe, mas já sabe que não sabe. Está disposto a viver experiências que o ajudarão a saber e, nesse percurso, a naS©er para si mesmo.

A ideia de nascer para si mesmo também pode ser pensada pela linguagem digital. A arroba (@), nos endereços eletrônicos, indica onde uma conta está hospedada. Aqui, a conta-ação marca o início do movimento do sujeito que, por enquanto, ocupa o próprio corpo adolescente como um inquilino.

É preciso caminhar para se tornar proprietário desse espaço, construir a própria identidade e aprender a protegê-la. Assim, o adolescente pode escutar o que os adultos dizem sem tomar cada fala como uma definição de quem ele deve ser.

Concluo, então, que o adolescente viaja em direção ao próprio domínio. O domínio pode ser apenas o endereço de uma página, mas, para alcançá-lo, é preciso construir o próprio caminho. Sobre-vi-ver a ser é sobreviver às cobranças, ver a si mesmo e insistir no movimento de vir a ser.

Imagem: Arquivo pessoal.
Imagem: Arquivo pessoal.

 
 
 

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