Menopausa e psicanálise: um possível e potente encontro
- Sandra Hoffmann

- 10 de mar.
- 5 min de leitura
Mulheres e/em Menopausa e Psicanálise
Quando a produção hormonal das mulheres diminui, a capacidade psíquica pode se manifestar: a clínica psicanalítica pode auxiliar a mulher explorar e ressignificar suas potencialidades.
A menopausa é um período de vida natural em que há a conclusão de uma fase reprodutiva da vida feminina, mas também um vasto campo de possibilidades, novos reinícios.
Para além do processo biológico, a menopausa traz como companhia quadros emocionais, sociais e existenciais relevantes.
Assim sendo, a psicanálise pode auxiliar com sua ampla abordagem no acolhimento e entendimento das experiências das mulheres nesse momento de vida, oportunizando um local de análise para que se avance no sentido de novas elaborações e possibilidades de reinvenção.
Menopausa sob o viés da psicanálise
Numa visão psicanalítica em que a menopausa pode vir a ser um momento poderoso de reinvenção da existência da mulher, também se entende que anterior a isso, seja uma fase de crise psíquica em que a identidade da mulher seja estremecida. Os hormônios sexuais diminuem e uma grande parcela de mulheres sente sintomas emocionais, físicos, tais como calorão, insônia, uma irritabilidade e instabilidade emocional e psicológica.
Todos esses sinais e sintomas, muitas vezes podem deixar a mulher com a autoestima baixa, fazendo com que se sinta deslocada e com sentimentos intensos de raiva, de perda, entre outros. Sobretudo em um contexto social em que os jovens são vitrine para tudo.
A menopausa como transição
De outra forma, a menopausa pode ser uma fase de transição para “novas paisagens existenciais”. Ao se deparar com um corpo que modificou e a mensagem que isso representa, se faz necessário enfrentar as barreiras físicas impostas pelo tempo e os questionamentos referente ao fim da vida, muitas das mulheres são impelidas a reavaliar seu cenário existencial, seus princípios e propósitos.
Aquele ponto do “pulo da gata” para se desprender de atividades e expectativas que perderam sua função, fornecendo assim brechas para novas formas de existir.
A psicanálise ao lado de mulheres na menopausa
Na clínica psicanalítica, o trabalho com as mulheres na menopausa implica no acolhimento dos sentimentos e emoções desordenadas e em modos de condução a ressignificações de tudo isso, na elaboração do luto e das muitas perdas desse período existencial.
Através da técnica psicanalítica o profissional auxilia as pessoas a entrar em contato com suas questões inconscientes, oportunizando assim novas elaborações das identificações e história de vida, num momento e possibilidades no foco interior e não sob a régua dos padrões sociais vigentes.
Um corpo muda, mas não precisa se calar
O impacto que as mudanças físicas nessa fase podem causar é um dos maiores desafios da menopausa, pois os hormônios em declínio geram inúmeros sintomas, entre eles a falta da lubrificação vaginal, a atrofia dos órgãos internos e a dificuldade que podem causar na hora da relação sexual, acarretando a falta da libido sexual e da vida! Com isso, a depressão pode ocorrer, sentimentos diversos se associam a uma inadequação e isolamento social. Um apagamento da existência, um calar frente o que não se soube interpretar, visto que pouco se orienta, prepara a mulher para a menopausa, o foco é numa sexualidade ligada somente ao potencial reprodutivo e jovem.
A menopausa, como próprio nome o diz: “sem pressa”, pode ser um tempo poderoso da existência se for sabiamente conduzida. Um tempo de silencio para ressignificações não quer dizer que seja necessário se calar, muito pelo contrário, é através da fala que a mulher pode se escutar e decidir o que fazer com isso, há a possibilidade de mudar o que não está bom, optar por caminhos possíveis.
A sexualidade das mulheres na menopausa sob o viés psicanalítico
No viés psicanalítico, a sexualidade humana é entendida como experiência subjetiva, que vai além das demandas físicas e reprodutivas; sendo um meio de expressar a criatividade, os desejos e o vigor psíquico e mental, entre outros. Assim, para as mulheres na menopausa, a terapia deve ser de acolhimento a esse todo: corpo, mente, psíquico, enfim, facilitar para que consigam se reconectar com seu corpo e redescobrir novos meios de obter o prazer no processo de saber mais de si.
Ansiedade
O bom profissional consegue praticar uma escuta ativa e atenta, oportunizando a paciente aberturas de investigação e entendimento da sua sexualidade, que pode ter sido reprimida no percurso da vida. Ao extravasar os sentimentos reprimidos, é possível de se trabalhar a repressão e os traumas emocionais, liberando espaço para novas experiencias e sentimentos fraternais.
Na menopausa é possível que a mulher encontre tempo para esse cuidado, um tempo de reconciliação consigo própria e sua sexualidade, resultando em uma expansão dos laços, prazeres que ultrapassam as convenções sexuais.
Ressignificando a solidão
Na menopausa, outra situação que se destaca são os vínculos com a família, que se modificam diante das mudanças decorrente da conduta conjugal, filhos que saem da casa para estudar, trabalhar, se relacionar ou os pais que se tornam idosos. Situações que podem aumentar a solidão, levando a desistência de planos e propósitos de vida, provocando considerações relacionadas ao seu lugar no seio familiar e social.
Estas mulheres trazem ao consultório os questionamentos que estão impactando os seus papéis sociais e a própria identidade. Ao profissional da clínica psicanalítica cabe ajudar essas mulheres a reelaborar as perdas, recriando relações e reformulando modos de pertença e realizações.
Pela associação livre a mulher encontra jeito de se deparar com os desejos e as fantasias até então reprimidos, seja pela vontade de agradar ou pelas necessidades familiares e sociais postas.
Novas narrativas
Acaso a mulher saiba aproveitar, pode ser uma fase poderosa onde poderá se reconectar com sua subjetividade, retomando os projetos e sonhos abandonados. No ato de rever o vazio e solidão a mulher se motiva a buscar novas formas de se realizar e encontrar satisfação.
Na clínica psicanalítica, ela poderá encontrar o apoio para que possa se desenvolver por meio de insights, criando narrativas acerca de si própria.
Considerações Finais
A menopausa pode vir a ser uma fase especial onde novas possibilidades estimularão o amadurecimento emocional, mental e até mesmo físico. Na ótica desenvolvida pela concepção psicanalítica, a mulher pode chegar a entendimentos sob o feminino dantes inimagináveis.
Na clínica psicanalítica, o intuito é auxiliar na organização dos afetos, das perdas, desvendando novas possibilidades físicas, sentimentais e psicológicas.
Pela prática de uma escuta ativa e atenta dos desejos inconscientes, dos sonhos, ato falhos, entre outros, a clínica psicanalítica pode estimular a mulher a se reinventar e desenvolver novas formas de se relacionar intrínseca e socialmente.
Anteriormente vista como uma fase limitante e restritiva, ultrapassando esse olhar pessimista, poderá percebê-la como um universo de possibilidades a serem desenvolvidas, redescobrindo sonhos e modos de transitar num mundo em que pode ser mais livre, se dedicar a si como nunca.


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